Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2026
“Ala-Arriba!”.
Já muito se escreveu e falou sobre este filme de Leitão de Barros realizado em 1942. Sem querer ser repetitivo, nunca é demais voltar a escrever algo sobre ele, pois merece-o por variadas razões, a 1ª das quais por retratar a minha terra e sua gente.
Baseado na obra de Santos Graça publicada em 1932, “O Poveiro”, este filme seria o primeiro dos poucos filmes portugueses na categoria de “docuficção”, um documentário dentro da ficção, com raíz etnográfica. Seria também o 2º em todo o mundo nesta área, sendo o 1º a obra de Robert Flaherty “Moana”, de 1926.
Sobre o significado da expressão, tida como exclusivamente poveira, tal prende-se com o puxar dos barcos vindos da faina para cima no areal, trabalho de força levado a cabo por homens, mulheres, crianças e velhos. Tentando chegar à raíz desta expressão, curiosamente, entre 2003 e 2006, trabalhei em Londres, na Inglaterra, e a certa altura um dos meus supervisores no trabalho era natural da Palestina. Sempre que era preciso acelerar um pouco o trabalho, em tom de brincadeira nos dizia em voz alta “Ala-Ala!”. Quando o ouvi pela primeira vez, de imediato pensei para mim: “será coincidência ou tem isto a ver com o Ala-Arriba poveiro?...” e dali para a frente, sempre que ele o repetia, lhe achava graça e me punha a pensar. Ao que alguns etnógrafos do passado escreveram, ao longo da costa Ibérica fixaram-se diversas colónias de povos mediterrânicos (e não só), entre eles os conhecidos Fenícios. A Fenícia era precisamente onde hoje em dia se situa a Palestina e Líbano, povos esses de grande dedicação à vida marítima. Por outro lado a presença moura durante séculos na Iberia poderá estar na origem de parte da expressão, mas tal ficará para outros artigos.
Voltando ao filme, este tornou-se icónico para as gentes poveiras desde que foi realizado, mas também a nível nacional e internacional, encontrando-se relatos dele mesmo na Ìndia ou na Tailândia. Singularidades do filme foram várias, como o facto da maioria dos intervenientes serem reais pescadores e suas famílias, ou do casal principal do filme, o João Moço (Domingos Gonçalves) e a Julha (Elsa Bela-Flôr) serem um casal verdadeiro. Somente 2 actrizes profissionais integraram o filme.


Noutro aspecto relacionado com a Póvoa e suas influências escandinavas, nomeadamente nas suas siglas tão afamadas, regras sociais ou origem dos barcos, desde há anos que gostaria de saber o porquê de um “detalhe” neste filme: a mulher principal no filme (Elsa Bela-Flôr), tem no filme o nome de “Julha Bô”. Só neste filme conheço referência a este apelido “Bô” em gente da Póvoa. Coincidência ou provavelmente não, “Bo” é o diminutivo do antigo termo “bua”, significando “vive / sobrevive” na velha língua Nórdica e com origem na Dinamarca e Suécia. Ainda hoje é comum e usado na Escandinávia. A sua raíz estará eventualmente nas crianças que nasciam com dificuldades, mas com o passar dos dias acabavam por “viver” e daí receberem o nome / apelido “Bo”.
Sendo a imagem de uma comunidade piscatória a mais forte e representativa da Póvoa de Varzim, pelo menos no passado, graças a Leitão de Barros, ficou imortalizado em filme o carisma desta terra e suas gentes. Aqueles tempos e aquela praia dos pescadores desapareceram (talvez) para sempre, mas tive a sorte de ainda brincar naquela areia quando era miúdo.
Quanto àquelas gentes... julgo que resistiram ao tempo e ainda mantêm o mesmo carisma piscatório, mas pouco resiste delas na Póvoa. Encontram-se hoje ligeiramente mais a Sul... na sua maior colónia, as Caxinas e Poça da Barca.
Na 2ª imagem acima está o cartaz de estreia do filme no Teatro São Luiz, a 15 de Setembro de 1942.Felizmente, o filme é de fácil aquisição hoje em dia em DVD e legendado em diferentes línguas.
Pelas palavras de Raúl Brandão.
«O poveiro ignora tudo fora da sua profissão, mas essa conhece-a como nenhum outro pescador. Sabe onde está o banco da sardinha pelo voo do mascato, que lá do alto cai a prumo sobre o cardume; quando ela anda terrenha, isto é, perto da costa, e torneira ou à flôr das águas. Sabe a palmos o mar da Cartola, que dá a pescada, o da Ferralhuda, que dá a raia, o da Gata, que dá raia e cação, o Bianco, o Lameirão, etc. Acima de tudo está Deus e para eles o Senhor do Mar é que dá a fome e a fartura.»
Raúl Brandão, 1921 – “Os Pescadores”.

Neste belíssimo postal dos anos 60, é possível ligar este parágrafo de Raúl Brandão a vários elementos que o compõem. A praia dos pescadores e a baía estão apinhados de barcos e sempre a Sul no horizonte, a igreja de N. Srª da Lapa, padroeira de grande culto por parte destes pescadores.
Na baía encontram-se inúmeras motoras de popa inconfundível, redonda e lançada, denominada “popa de leque”. Dos barcos de pesca do passado, a motor, estes são os meus favoritos, pelas bonitas e equilibradas linhas de construção. Muitas delas eram construídas em Vila do Conde, estaleiros esses onde se desenhavam e construíam belos barcos desde longos tempos. Estas popas redondas em forma de leque tinham por função evitar que ao alar as redes pela popa, à força de braços, estas se aproximassem da hélice ou do leme. Com a evolução no alar das redes para as laterais dos barcos, desapareceram estas bonitas popas, passando a ficar “direitas” ou mesmo nalguns casos raros, a fecharem inclinadas para dentro, caso do barco “Romar”, ligado à minha família e dois outros seus semelhantes, construídos em Vila do Conde.
Em primeiro plano está uma catraia grande, já com adaptação para motor à ré. Motores comuns nesta altura, na média dos 5 aos 25 cv, eram os Evinrude, Johnson, Lambretta, entre outros, os quais fixavam no suporte por intermédio de dois parafusos e nalguns casos os pescadores ainda lhe atavam um cabo por segurança, em caso do suporte partir. Sempre representativos da profunda fé religiosa desta comunidade, os seus barcos eram quase a sua imagem de marca e ainda hoje os modernos barcos não a deixam para trás nas pinturas.
Que postal magnífico, era esta Praia dos Pescadores da Póvoa de Varzim. Hoje... o postal é outro.
A Póvoa de Varzim dos barcos.
Postal da Póvoa de Varzim, julgo de inícios dos anos 80, mostrando 4 belas proas lançadas, mas 5 barcos ao todo. Pescadores mais antigos talvez consigam descortinar os nomes dos 3 barcos à direita. O tal “escondido”, com a enorme casa do leme, parece ser o “Irmãos Cambola”, barco imponente sem dúvida.
Era costume, nesta baía, virem encalhar no areal do Fieiro para serem bem esfregados no casco, de modo a retirar todo o limo e verdete e por vezes receberem uma nova pintura. Lembro-me de ir um par de vezes com o meu pai fazer isso ao barco onde andava, não me recordo qual, pois andou em vários, mas teria eu uns 10 anos. Era fantástico poder estar ao pé de um barco destes no areal e ficar a admirar o grande casco que nos habituamos a ver só pela metade na água.
Quando chegava a altura de sair do areal dias depois, deixava uma enorme cova na areia, que com a maré mais cheia ficava ocultada. Lembro-me de apanhar um enorme susto quando numa ocasião brincava eu pela beira-mar a puxar o meu barquito de lata, e de repente “afundo-me” de repente numa destas grandes covas invisíveis debaixo de água. Por sorte consegui sair imediatamente dali, mas foi um daqueles sustos que nunca esqueci, com a areia a fugir debaixo dos pés.
Na estrada junto à igreja de N. Srª da Lapa podem ver-se vários autocarros, o que indica ser provavelmente a altura das festas de N. Srª da Assunção.
Em Dezembro passado estive a contemplar cuidadosamente os barcos de pesca actuais que atracam no porto da Póvoa. Notam-se ainda uns poucos desta geração antiga, mas na sua maior parte já com muitas modificações, com chaparias e coberturas à proa ou por todo. Além disso, hoje em dia cada vez menos se constrói barcos em madeira, usando-se o alumínio. Procura-se dar mais protecção dos elementos ao pescador no seu duro trabalho, melhorar as condições a bordo, o que é de louvar. No entanto os barcos deixaram de ter esta imagem e linhas belíssimas, dignas de admiração e registo para a posteridade. Passaram a mostrar a pesca moderna, de aspecto industrial onde a maquinaria substituiu ao máximo a força de braços do passado.
Dedico esta imagem e o que representa ao amigo António Carmo, ligado aos estaleiros Samuel & Filhos de Vila do Conde por via familiar e de experiência própria onde trabalhou. Eventualmente alguns, senão todos nesta imagem foram construídos em Vila do Conde e conversei quanto pude sobre barcos destes com ele. Esperemos que o seu saber já muito raro sobre como se construíam, não se perca. É um saber daqueles misteriosos e empolgantes, em que se riscavam as peças de um barco no chão e nunca foi preciso um computador.
Restam-nos hoje os postais... e o modelismo naval.
A Póvoa de Varzim dos barcos.
Num folheto turístico da Póvoa de Varzim de 1962, que “achei” no Porto, são algumas as fotos de relevo único sobre a sua vida piscatória. Exactamente onde estas mulheres estão, passei muitas tardes a puxar os meus barquinhos de lata por um longo cordel andando ao longo do areal, e adorava vê-los a cortar a àgua calma, com as ondas pequeninas a quebrar e que pareciam feitas à escala daqueles barquinhos.
O dia é nitidamente de vento fraco, não mais que uma “aragem” e a catraia pequena sem a ajuda do motor não vai hoje a lado nenhum.
Note-se, como era habitual, as inúmeras motoras ancoradas na baía e que apresentam uma decoração muito semelhante aos barcos da região centro, como Peniche, porto de relevo no desenvolvimento e evolução destes barcos desde o início do séc. XX.
Supondo que estas são fotografias de Verão, enquanto esta catraia procura vento, ao mesmo tempo muitos homens encontravam-se a pescar na Terra Nova ao bacalhau e muitas velas iguais a esta armavam os seus dóris. Era de portos e tradições de vida de mar como esta, ao longo de Portugal, que lhes vinha a genica e o saber para navegar e pescar fosse onde fosse.
A Póvoa de Varzim dos moínhos.
Também parte dum folheto turístico da Póvoa de Varzim de 1962, vê-se nesta imagem o topo do monte de S. Félix numa altura em que se mostrava muito diferente do que é na actualidade. Todo o chão, em erva ressequida, dá vontade de andar nele descalço e parece que neste tempo, a vida passava mais devagar.
As minhas primeiras lembranças de moínhos são neste monte, quando por vezes se ia às suas matas passar a 2ª feira de Páscoa e pela tarde se ia até ao topo apreciar a vista. Os moínhos da beira-mar, para Norte da Póvoa via-os de vez em quando em passagem de carro, e sempre os admirei pela singularidade que representam. Afinal, onde nasci e cresci não existiam, fosse nas Caxinas, Póvoa cidade, ou Vila do Conde. São na minha opinião, hoje tão icónicos como os barcos tradicionais à vela tão comuns e numerosos em tempos antigos. Alguns moínhos sobrevivem felizmente hoje, recuperados e muitos outros, ainda abandonados. Quanto aos barcos, esses é que é mais difícil trazê-los de novo à vida, funcional ou representativa. Eram feitos de madeira e barcos velhos ou sem uso, naqueles tempos serviam só para desfazer e queimar. Felizmente, muitos dos moínhos eram feitos de pedra.
As origens do salva-vidas “Cego do Maio” - Póvoa de Varzim.
Whitby é uma comunidade piscatória localizada na costa Leste de Inglaterra, condado de Yorkshire do Norte. Desde sempre que as condições geográficas e o elevado tráfego marítimo na zona provocara trágicos naufrágios e é em 1802 que é entregue à comunidade o primeiro barco salva-vidas. Com cerca de 9 metros de comprimento, foi construído por Greathead ao custo de 160 libras. Dois barcos de substituição seriam entregues em 1822, um para cada lado do porto. Já em 1918, uma casa de abrigo para o primeiro salva-vidas a motor foi construída, mas antes desta existia desde 1865 a estação de Upgang, localizada numa ravina, uma milha a Oeste do porto e é nela que tem início a história do salva-vidas “William Riley”.
O “William Riley of Birmingham & Leamington” foi um de vários salva-vidas de estrutura leve, e casco raso, construídos em Canning Town, Londres pela Thames and Iron Works. O protótipo para esta classe de salva-vidas foi criado para a estação de Dungeness, Kent, na ponta sueste de Inglaterra em 1895 e a mesma deu o nome à classe, embora estes barcos sejam referidos simplesmente como “Rubies”, nome do seu desenhador.
Foi construído em 1909 ao custo de 722 libras, quantia financiada pelo fundo de William Riley de Leamington. Este “rubie” de 10,36 metros de comprimento e 2,44 de largo, possuia quilha em madeira e ferro com cerca de 13 cm e mais dois robaletes (quilhas laterais) de cerca de 5 metros, pesando uma média de 2 toneladas. Este salva-vidas a remos era um dos barcos sem vela mais leves da R.N.L.I (Royal National Lifeboat Institution) e os seus 10 remos podiam suportar 2 homens em cada, juntando-se 3 oficiais à tripulação.

O salva-vidas entrou ao serviço a 11 de Junho de 1909 (foto 1) e após provas de mar foi colocado na estação de Upgang, sendo oficialmente inaugurado a 23 de Agosto. Localizando-se a estação a uma milha do porto, o salva-vidas foi apenas lançado em serviço 2 vezes e a estação viria a encerrar em Novembro de 1919. Surgindo neste ano o primeiro salva-vidas a motor, o “Margareth Harker Smith”, o “William Riley” foi transferido para o porto de Whitby onde passou a ser o salva-vidas número 2. Seria lançado em missões mais 31 vezes, salvando ao todo 10 vidas. Serviu até 27 de Maio de 1931, altura em que seria abatido ao efectivo.
Passados alguns meses, foi vendido por 35 libras para Walthamstow e convertido em barco de recreio com motor. Durante as décadas seguintes pouco se sabe da sua história e pelos anos 60 encontrava-se nas docas de Redston, no rio Severn. Com novo dono em 1982, um construtor de Stourport, foi restaurado e recebeu um novo motor. Em finais dos anos 80 foi transportado para o Devon e ancorado em Barnstaple.
Em 2001 foi de novo vendido e rebocado pelo R.N.L.I. após falha de motor. Algum tempo mais tarde soltou-se das amarras e à deriva embateu numa ponte baixa, destruindo a parte superior. Mais tarde numa maré baixa, o barco poisou num poste de ancoragem e perfurou 2 vezes o casco abaixo da linha de água. O dono seguinte, com pouco tempo para reparações, permitiu que a cabine apodrecesse e o vandalismo resultou em mais danos no casco.

Em 2005, Dave Charlton viu um anúncio num leilão na internet sobre um barco abandonado e uma pesquisa mais detalhada mostrou que se tratava do “William Riley”. Após alguns telefonemas e discussões de preço, o salva-vidas saíu do leilão. O único interesse de Dave era assegurar a sobrevivência de um importante exemplar da herança marítima. Contactando Peter Thomson, o director do Museu de Salva-vidas de Whitby, ficou acordado o maior interesse em que o velho barco regressaria a Whitby e seria restaurado na sua glória inicial. Após a rápida formação de um grupo de apoio, constituído por partes interessadas e voluntários entusiastas, depressa se percebeu que seria necessário auxílio para ir a Devon buscar o barco.
Em Agosto, Dave, a sua esposa Sara, Peter Thomson e Tim Hicking foram recuperar o barco da margem do rio Taw onde se encontrava há vários anos. Algumas semanas antes, Dave e Sara estiveram a limpar os sacos de lixo acumulados no barco e a tapar os buracos no casco de modo a que o barco flutuasse pelo menos uma hora para descer o rio até onde o camião de transporte se encontrava. Após o sucesso desta operação, um camião-guindaste foi oferecido por uma firma local para elevar o barco e um camião para o transportar, tudo sem custos.
A 20 de Agosto o barco chegava a Whitby e as notícias à volta dele depressa se espalharam, formando-se uma multidão para o receber de volta a casa. Após alguns dias de exibição na marina seguiu então para o restauro. A primeira fase foi uma limpeza profunda e remoção de todas as partes da cabine que lhe fora instalada no passado. Tinta velha e restos de óleo foram limpos e teve início uma revisão por profissionais. Embora tivesse quase 100 anos, a sólida construção do barco mostrava-se resistente.

Numa proposta de financiamente ao Fundo da Lotaria Inglesa bem sucedida, Dave andou em busca de partes novas para o barco, desde Montrose a Paris, chegando mesmo a encontrar três barcoa da mesma classe abandonados e irrecuperáveis, dos quais se aproveitariam partes. No restauro do casco, a maior parte do característico pranchado em diagonal foi substituído, com a supervisão de um semi-retirado construtor naval, Mike Coates. Partes apodrecidas da quilha, roda de proa e cadaste foram substituídas, bem como das amuradas, coberturas de proa e ré refeitas e após os trabalhos, um fino revestimento de fibra de vidro foi aplicado no casco por fora e em resina por dentro.
Em 2007 iniciaram-se os trabalhos finais por parte de dois profissionais em recuperação de barcos antigos e em Fevereiro de 2008 o “William Riley” voltava a ser um verdadeiro salva-vidas a remos.
Com os trabalhos de madeira e ferragens terminado, o barco foi pintado nas suas cores de 1914 e colocaram-se todos os cordames, um rádio moderno e uma antiga bússola de época.A 1 de Junho de 2008 era oficialmente re-lançado à água.
Fotos 5,6 - Museu de História e Etnografia da Póvoa de Varzim
Fases de recuperação do “William Riley of Birmingham & Leamington” – fotos:
No Museu de História e Etnografia da Póvoa de Varzim, recentemente remodelado, encontra-se exposto o seu mítico barco salva-vidas “Cego do Maio”, o qual se pode ver nestas duas últimas fotos.
Embora nunca tenha encontrado na internet informação oficial sobre a história deste salva-vidas poveiro, as semelhanças com o “William Riley” são muitas, notando apenas as coberturas de proa e ré mais arredondadas no “Cego do Maio”. Parece-me por isso ser também ele um barco da classe “Rubie”, eventualmente construído e vindo de Londres, dados a confirmar pelos mais conhecedores desta bonita classe de salva-vidas antigos.
Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2026
Um pouco do folclore poveiro.
JANEIRO BENDITO
«Até meados do século passado, no tempo dos barcos de vela e remos, o Janeiro era a época rainha para o pescador poveiro: tempo de fartura de sardinha e de pescada. Era a quadra reconhecida pela classe piscatória como salvatério dos fiados na mercearia do bairro. Se um credor batia à porta reclamando alguma dívida, a dona da casa respondia com convicção: está a chegar o Janeiro, ou ainda, em Janeiro a gente paga! Se um filho precisava de roupa nova ou se a filha pedia enxoval, a resposta era a mesma: para Janeiro pensamos nisso! Janeiro, para a comunidade piscatória, não era o primeiro mês do ano: correspondia à “safra da sardinha que começava em Outubro (Santos) e acabava no mês de Fevereiro (Senhora da Guia)". Era altura de boas pescarias e de bom peixe. A sardinha era uma estampa de prata e a pescada era gorda e cobiçada. Uma boa safra da sardinha era, para o poveiro, "um Janeiro rico". O Janeiro estava para o homem do mar, como o São Miguel para o lavrador.
Nessa curta época de abundância, era ver os barcos abicar à ribeira com sardinha até ao catulo e caças de pescada com peixe graúdo: era ver as mulheres de obrigação, alegres e felizes, correndo para os seus barcos espreitando a carga; era ver os pequenos ratos-de-água cantarolando, já que se adivinhava refeição melhorada; era ver as vendedeiras, de gamela à cabeça, voando para os barcos, mirando e remirando a sardinha vivinha a saltar, para poder vendê-la aos fregueses das aldeias próximas; era ver os comerciantes esfregando as mãos, na esperança de que o dinheiro fresco entrasse na gaveta e a dívida fosse abatida no livro de assentos. Em Janeiro farto, a alegria voltava aos pobres lares dos pescadores que se contentavam em enganar a fome a maior parte do ano.
Nos meses de mau tempo, os barcos jaziam arribados pelo areal fora sem que o pescador ousasse sair para o mar. Para o sustento dos seus, o nosso valente homem do mar sujeitava-se a calcorrear as freguesias do concelho pedindo aos lavradores algum presigo para dar aos filhos. Tempos de fome, de amargura e de tristeza. Janeiro era também tempo de naufrágios. O Inverno rigoroso e a forte ondulação à entrada da barra era presságio de morte. Os barcos de madeira e a falta de meios de salvamento, fazia com que a tragédia se repetisse, tornando-se como causa inevitável no destino do pescador.
Com o temporal e o assobio dos ventos, nasciam os medos, as bruxas, os corredores e outras coisas ruins. Um cão a ladrar rua fora podia ser um "corredor", um pano voando com o vento seria uma alma penada vagueando por castigo e uma sombra na areia era um encontro de bruxas com a presença do demónio.
O mau tempo alimentava superstições e medos do poveiro que, para prevenir o mau-olhado ou encontros com o diabo, recolhia a casa no fim de tarde, ao toque das Trindades.
Um grupo de amigos, conhecidos pelo "Grupo das Terças-Feiras" já que se reúne ao jantar uma vez por mês nesse dia da semana, combinou uma caldeirada de peixe no salão de festas da “Juvenorte”. Para animar a sobremesa, José Carlos Moita, director da Associação, convidou a Desterra do Caetano e a Beatriz Laranja, duas poveiras do Ramalhão, para lembrarem o Janeiro do antigamente. Histórias curiosas vividas nos seus tempos de meninas, onde o temporal estava associado a tudo o que acontecia de mal na comunidade piscatória. Mau tempo que trazia escuridão e o medo do sobrenatural. As três histórias que contaram foram relatadas pelos seus pais ou ouvidas por familiares dos intervenientes. A Póvoa no seu melhor.»
Um pouco do folclore poveiro.
A LANCHA ENGUIÇADA
«Estávamos no mês de Natal. Dezembro chuvoso e frio, com um vento suestão a exigir todas as cautelas aos mestres das lanchas. O Tio Diogo era tripulante da "Ala Arriba", do mestre Manuel Maio. Tinha ordens para embarcar de madrugada. Depois de passar pelas brasas, pegou na cesta e saiu para a ribeira onde o mestre Manel o esperava. À revessa, descendo a Avenida até ao Castelo, deparou-se com uma mulher de negro, pequenina, de rosto enrugado e olhos salientes, que lhe barrou o caminho junto à estação salva-vidas. Nem vivalma por ali. Só se ouvia o sibilar do vento.
- Para onde vais? - pergunta a mulher misteriosa.
- Vou para o mar... a lancha do Tio Manel está à minha espera! - respondeu a medo o Tio Diogo.
- Larga a cesta e leva-me às"canichas" até Coelheiro. Tenho lá a minha gente à espera ...
- Não posso perder a maré... tenho a companha pronta para ir pata o mar...
- É uma ordem do demónio e tens de obedecer. O barco espera. Se não me levares, ficas tolhido toda a vida e a tua família sofrerá...
Tremendo de susto, o Tio Diogo encanichou aquela mulher do outro mundo e levou-a até Coelheiro. Mal a pousou no chão, um clarão acendeu-se e a bruxa desapareceu por entre gritos e risadas. Borrado de medo, o Tio Diogo, perdido num descampado, desata a fugir até ao Castelo. Depois de apanhar o cesto no local onde o deixou, correu para a praia esperando ainda encontrar a sua lancha. Quando chegou, os camaradas bem tentavam fazê-la entrar na água mas não conseguiam. Se a lancha fosse para a água tu não embarcavas. Estamos aqui há mais de uma hora e não conseguimos nada. Não se mexe do sítio, parece que o barco está enguiçado! - gritava, desesperado, o mestre Maio. O Tio Diogo, meio aparvalhado, falando de bruxas e coisas do outro mundo, foi gaguejando ao mestre o motivo do atraso.
- Quem sabe se é por isso que a lancha não se mexe. Se calhar estava à tua espera. Para saber que falas verdade, empurra um bocadinho... Pode ser que haja aqui mão do diabo! - lembrou o mestre Maio. Mal encostou o ombro à popa do barco e já ele entrava mansamente na água. Credo em cruz, Santo nome de Jesus! Credo em cruz, Santo nome de Jesus! Credo em cruz, Santo nome de Jesus! - benzia-se a tripulação, acompanhada de três padres-nossos. Tens bruxedo! - dizia o Ti Manel - Tens bruxedo! Com um rosário de orações como companhia, a lancha seguiu para o pesqueiro. Ao outro dia voltou carregada de peixe.
O Tio Diogo, que nunca falou durante a viagem, regressou a casa e contou a história das canichas à sua mulher. Isso é coisa de bruxas! Vou-te fazer um chá de folhas de susto para te passar o mau-olhado. A vida do Tio Diogo apagou-se a partir desse dia. Uma janela que se abria com o vento ou uma porta que rangia, para o Tio Diogo "era o diabo a entrar e casa". Um mês depois, os sinos de São José dobravam a finados. No funeral do Tio-Diogo, para além da família e dos camaradas de classe, seguia uma velhinha trôpega vestida de preto. Ninguém perguntou quem era. A mulher do Diogo suspeitou que fosse a bruxa mas, para evitar a maldição do demónio, agarrada ao terço, olhou para o Céu todo o caminho. Quando chegou à porta do cemitério, quando o padre rezou a oração da "encomendação da alma", a velha levou sumiço. A partir daí, a Tia Josefa, viúva do Tio Diogo, dizia pela vizinhança que, em dias de temporal, o seu homem aparecia a pedir perdão. Não devia ter carregado com a velha às canichas... Durante anos a Tia Josefa desconfiou que a bruxa fosse uma sua vizinha que passava a vida a rogar pragas do seu quintal. Uma mulher que era mesmo o diabo em pessoa!»
“O Cego do Maio”, por Cândido Landolt.
«José Rodrigues Maio, o Cego do Maio, nasceu no dia 8 de Outubro de 1817, na rua dos Ferreiros, desta vila (Póvoa de Varzim), e na manhã de 13 de Novembro de 1884, pelas 10 horas, “O sol estendeu o seu manto de oiro e, envolvendo aquele espírito de cristal nas suas dobras de luz - arrebatou-o para as esferas onde só vivem espíritos assim nobres, assim grandes, assim heróicos”.
Os povoenses tiveram a generosa ideia de erguer um busto, em bronze, ao benemérito Cego do Maio, no sítio mais central da beira-mar. A câmara deu à Cavarneira o título de “Rua do Cego do Maio” e tem na sala das suas sessões uma magnífica tela. No Clube Naval, existem as medalhas e os diplomas que lhe concederam. E eu, do Cego do Maio, tenho a agulha e o muro com que ele fazia as suas redes. Venero essas relíquias por terem sido dum grande que, no meu entender, subiu acima de homem - foi um carinhoso Santo!
E que outra cousa hei-de eu chamar a quem praticou os actos de maior bravura, de maior abnegação e de maior altruísmo, estando sempre pronto e decidido a morrer pelos seus companheiros sem outra recompensa que não fosse as bênçãos da Providência?
Contar as vidas que ele salvou? Como e quando?
De 39 pessoas sei eu que ele arrancou do abismo! Mas ele praticou um acto de tamanha grandeza que para aqui o traslado do «Comércio do Porto», jornal da maior reputação e seriedade, o que de Cego do Maio há mais de 27 anos publicou:
«Nunca receava o perigo, e ainda há poucos dias, quando o grande rolo do mar e a arrebentação na costa da Póvoa expunham a perigo iminente mais de 200 lanchas da pescaria (entrando a do Cego do Maio nesse número), apenas devido à sua coragem e perícia, pôs pé em terra na Cachina, correu para o sítio do salva-vidas, que até então se conservava imóvel, reconhece o grande perigo: nem choros nem lágrimas o detêm, e apenas entra dentro do frágil lenho, encontra companheiros aventurosos, dirigem-se para a barra, transpõem-na, e dirigindo o rumo dos infelizes pescadores, extenuados pela ansiedade, pelo trabalho e pela fome, guia para dentro da barra 60 lanchas, com cerca de 700 tripulantes, e é ele o último que abandona o posto de honra, quando já tinha escurecido!»
O Cego do Maio foi um herói, a sua alma foi a de um crente, as suas cinzas são as de um carinhoso Santo.

Crianças pequeninas, filhas do amor e da inocência, amigas da nossa irmã Água e queridas do nosso irmão Sol, - quando passardes pela beira da estátua ou das cinzas do Cego do Maio, reverenciai a memória desse grande coração imaculado e santo, desse generoso e extraordinário benemérito que foi o assombro de toda a gente do seu tempo.
Assim como sai da alavanca a potência, que brote dos vossos tenros corações a veneração e o respeito pelo herói. Aprendei e decorai a epopeia homérica deste homem, que não conheceu a vaidade nem aspirou grandezas. Nasceu humilde, viveu pobre e morreu com toda a serenidade dum justo. Outro que em igualdade de circunstâncias hoje vivesse, seria irmão da ambição e companheiro de ridículas pretensões, pedia aos jornais uma notícia do dia dos seus anos ou de quando fosse tratar de negócios ao Porto, atravessava como um pavão os ruas da vila e trazia debaixo do tacão a sombra do seu semelhante.
O Cego do Maio nunca se deslumbrou pelas mais altas recompensas que lhe concederam,- com a alma santíssima e pura de benemérito, foi simplesmente uma única coisa - uma glória da nossa terra.»
Cândido Landolt - revista «A Póvoa de Varzim», n.º 3, Novembro de 1911.
Cego do Maio - A lenda viva do pescador poveiro.
«Nasci a meia dúzia de passos da casa onde morreu. Conheci e convivi com seus familiares próximos. Tínhamos em comum o fieiro da Lapa, a janela sobre o mar e as estremundes. A minha infância povoou-se de histórias e de lendas sobre José Rodrigues Maio, o heróico pescador poveiro conhecido pelo “Cego do Maio”. Os pescadores meus vizinhos, nas tardes soalheiras de domingo ou entre dois jogos de cartas à revessa de qualquer embarcação varada, tinham como mote obrigatório de conversa as aventuras do “Tio Maio”, um tronco de homem, forte e “largo de ossos”, tão rude como humilde, tão áspero como dócil, tão bruto como meigo. A esse respeito, sobre essa multiplicidade de comportamentos, contavam algumas inofensivas anedotas.
José Rodrigues Maio, filho do pescador António Rodrigues Maio e de Ana Rosa Margarida, nasceu na Rua dos Ferreiros, Póvoa de Varzim, a 8 de Outubro de 1817. Sessenta e sete anos mais tarde, a 13 de Novembro de 1884, pelas 10 horas da manhã, falecia serenamente rodeado pela família na sua casa, n.º 207, na Rua da Areia (hoje 31 de Janeiro), a cujo último troço (da Igreja da Lapa até ao limite sul do concelho) se chamava, na gíria popular, de Poça da Barca, por analogia com a área de Vila do Conde que se seguia. A confusão com esse topónimo deu origem a muitas imprecisões sobre a naturalidade do heróico pescador poveiro, induzindo mesmo alguns etnógrafos e historiadores menos criteriosos a erros grosseiros.
Pescador sardinheiro, filho de pescadores, a viver em frente ao mar, observando e dialogando com ele o dia inteiro, José Rodrigues Maio, o “Tio Maio”, como era carinhosamente tratado na comunidade piscatória, conhecia-o como “a palma das suas mãos”. Um mar calmo e bonançoso e, ao mesmo tempo, perigoso e traiçoeiro para as frágeis embarcações de vela e remos que demandavam a praia da Póvoa.
Recordemos que no tempo do “Cego do Maio” não havia porto de abrigo nem embarcações salva-vidas. Tudo o que de trágico acontecesse no mar, o pescador só podia contar com a “Providência Divina” ou a solidariedade dos seus camaradas de classe. Barco em perigo estava entregue ao destino.
José Rodrigues Maio sabia isso. Testemunha de um sem-número de naufrágios, sentia a insegurança do homem do mar como ninguém. Profundamente humano, devoto fervoroso de Nossa Senhora da Assunção, confiando na sua destreza e destemor, ele era o primeiro a saltar para a água tentando salvar vidas em perigo. Para aquele pescador raçudo e possante, o salvamento era cumprimento de dever.

Quando via ou previa algum naufrágio, indiferente ao estado do mar ou do tempo, “Cego do Maio”, acompanhado dos seus filhos Manuel e Francisco, atirava a sua pequena catraia mar dentro, perante o olhar atónito dos seus camaradas e gritos de dor dos familiares. Salvar os náufragos era a sua “cegueira”. Uma aventura que mais nenhum da sua classe se atrevia já que o “mar cão” era prenúncio de morte certa.
Na sua pequena catraia, o tio Maio, arriscando a sua vida e de seus filhos (que sempre o acompanharam), salvou cerca de 100 vidas. Salvamentos só pelo prazer de ser útil, desprezando agradecimentos e honrarias. Há quem diga que a alcunha “Cego do Maio” está ligada a esse desprezo pela vida, a essa cegueira de ajudar o próximo, atirando-se “às cegas” pelo mar dentro. Há quem defenda, porém, que José Rodrigues Maio teria uma belida num olho, as pálpebras de um olho um pouco descidas, daí a alcunha popular.
Os seus feitos, a quem ele respondia com um encolher de ombros, com uma humildade cativante, enchiam páginas das selectas das escolas (Livros de Leitura para a Instrução Primária), como dos jornais do Porto e de Lisboa. Pela sua bravura, Pereira Azurar, presidente da Câmara e seu grande amigo pessoal, em 14 de Maio de 1881, nomeia-o patrão do primeiro salva-vidas poveiro. Foi a maior honraria que poderiam ter dado ao heróico homem do mar. [...]
A Câmara da Póvoa de Varzim, na sua sessão de 17 de Novembro de 1884, lançou um voto de pesar pela perda do “Cego do Maio”, chamando-lhe “o maior amigo desta terra, incontestavelmente um dos mais honrados e prestimosos dos seus filhos, não deixando substituto que possa atingir à sua gigantesca altura”. Na altura a Câmara de Esposende associou-se ao luto da Póvoa “pela perda irreparável do Benemérito da humanidade”.
in: AZEVEDO, José de – “Cego do Maio: a lenda viva do pescador poveiro”. Agenda. Póvoa de Varzim: Câmara Municipal. (Outubro 1996), p. 1-5.
Há algumas semanas atrás, um comentário de Albino Gomes sobre Cego do Maio e o monumento a ele eregido dizia assim:

«CENTENÁRIO DO MONUMENTO AO CEGO DO MAIO Ainda há dias, o nosso conterrâneo Vilacondense, Sr. José Azevedo, que até já foi Presidente da Câmara da Póvoa de Varzim, escrevia no Comércio da Póvoa, de 10 de Setembro, um excelente artigo sobre este belo monumento ao Cego do Maio. Assim, ficamos a saber que, embora a Câmara da Póvoa tenha ignorado o facto, fez no passado dia 29 de Agosto 100 anos que foi inaugurado o Monumento ao Cego do Maio, no local onde agora está o Casino, que outrora foi de Vila do Conde e em 1934 mudou para a vizinha Póvoa. Em 1929, o monumento ao Herói do Mar foi mudado para o actual lugar, onde anteriormente estava a Igreja de S. José de Riba Mar. A ideia do monumento nasceu em 20 de Novembro de 1884, 7 dias após o falecimento do Homem, numa iniciativa da Ilustração Popular. Anos depois, em 1906, o Comércio da Póvoa retoma a ideia, lançando uma campanha, com o apoio do Club Naval Povoense. Constituíu-se um Júri composto por Teixeira Lopes, Rocha Peixoto e Marques de Oliveira. Depois de rejeitados dois projectos a obra coube ao prestigiado escultor Romão Júnior. O custo do monumento foi de 1 conto de reis. O Cego do Maio, foi nomeado pelo Rei D. Luiz, como CAVALEIRO DA ANTIGA E MUI NOBRE ORDEM DA TORRE E ESPADA, DO VALOR, LEALDADE E MÉRITO. A mais alta distinção nacional. Obviamente, que para os políticos de agora, isto da Lealdade e Mérito, parece não valer nada... .»
Esta última imagem que há muito tinha guardada, é de um projecto para um monumento ao pescador poveiro, datado de 13/04/1909. Suponho que será um dos projectos rejeitados e relacionados com o monumento ao Cego do Maio. Se assim fôr, a escolha que temos hoje é bem mais sóbria e sem o tom algo “Hollywoodesco” desta opção.
Pelo que refere Albino Gomes acima, esperemos que essa “sobriedade” não remeta o humilde e grandioso Cego do Maio para a prateleira Municipal, pois centenários demoram 100 anos a repetir-se.
imagem 2 – filme “Ala-Arriba” – José Leitão de Barros, 1942
Rocha Peixoto e os pescadores poveiros.
«Sempre os pescadores da Póvoa de Varzim despertaram em Rocha Peixoto atenção e carinho. Teriam sido a presença e a projecção, na vila natal, de tão típica colmeia humana, que conduziram o escritor para o campo do estudo da vida popular? Merece reparo, na verdade, o facto de dizer respeito aos pescadores poveiros o primeiro ensaio etnográfico que Rocha Peixoto pensou publicar, já projectado quando contava apenas 20 anos. E apesar da sua formação de naturalista, cedo o vemos, numa acção original, interessado em inserir os seus conhecimentos científicos no contexto da matéria folclórica. O trabalho que, logo em 1889, escreveu sobre a malacologia popular é, nesse sentido, sintomático – e simbólico – conseguindo então, a propósito das conchas marinhas, aliar o saber de origem erudita ao das tradições dos centros piscatórios do Norte do país (principalmente do da Póvoa de Varzim). Depois, a mirada etnográfica do cientista estendeu-se sucessivamente, acabando por se fixar no domínio das realizações materiais e artísticas do nosso povo e no da sua organização social.
Toda a vida sonhou Rocha Peixoto publicar um livro sobre os mais importantes aspectos etnográficos dos pescadores poveiros. Anunciara-o na mocidade, e ainda poucos meses antes de falecer, aos 42 anos, prometia tratar o assunto numa vasta obra em preparação. A morte que prematuramente o levou (a 2 de Maio, 1909), e a legítima ambição de ampliar o plano inicial, não permitiram que tal estudo viesse a ser impresso. Deixou-nos porém o grande etnógrafo, noutros trabalhos, algumas notas dispersas das muitas que havia recolhido para aquela obra. Também nos deixou, através de numerosas circunstâncias e atitudes, o testemunho da indesmentida afeição que nutriu pelos “poveirinhos”, que o seu amigo António Nobre cantou. Num breve apontamento passo a recordar, por ordem cronológica, as efemérides da vida de Rocha Peixoto relacionadas com os pescadores da sua terra:
1887 – (21 anos de idade)
No seu livro “O Museu Municipal do Porto (História Natural)”, impresso no Porto, anuncia ter em preparação um volume intitulado “Materiais para o estudo etnográfico e antropológico dos povos do litoral – I – Póvoa de Varzim”.
1889 – (23 anos)
No ensaio “Notas sobre a Malocologia Popular”, que apareceu no vol. I da Revista de Ciências Naturais e Sociais (orgão cultural portuense do qual Rocha Peixoto era um dos directores), dá notícias sobre a linguagem , superstições e costumes dos pescadores da Póvoa de Varzim.
Em “As Deficiências de Trabalho na Academia Politécnica”, opúsculo da sua autoria saído também no Porto, continua a prometer o anunciado trabalho etnográfico e antropológico acerca dos pescadores poveiros (trabalho que na altura já estava “encetado”, segundo afirma no ensaio “Notas sobre a Malocologia Popular”).
1894 – (28 anos)
Condoído da terrível situação económica da classe piscatória da sua terra – que o mau tempo impedia de ir à pesca – publica no jornal portuense O Primeiro de Janeiro, em 28 de Abril, um artigo que deu brado, intitulado “Miséria Poveira”. Nele desvendou ao país a iniquidade do fisco relativamente ao pobre e indefeso pescador da Póvoa, fez ver a necessidade de se concluir a construção do porto da vila e preconizou uma fiscalização conveniente da pesca de arrasto, que dizimava a riqueza piscícola das costas.
1895 – (29 anos)
Ao comentar, no vol. IV da Revista de Ciências Naturais e Sociais, um opúsculo de Baltasar Osório dedicado à ictiologia portuguesa, esclarece que muita da sardinha vendida em Matosinhos se devia, em grande parte, aos pescadores poveiros (centenas em certos dias!) que no porto de Leixões descarregavam as suas lanchas.
1896 – (30 anos)
Colabora numa campanha que a imprensa e as forças vivas da Póvoa de Varzim levaram então a efeito, junto do Governo, no sentido de que fossem defendidos os pescadores locais dos prejuízos causados pela pesca de arrasto. Sobre o assunto escreveu o artigo “A Pesca a Vapor”, publicado em primeira mão, em 24 de Maio, no jornal povoense O Liberal, e logo depois n´ O Primeiro de Janeiro (27 de Maio) e na Revista de Ciências Naturais e Sociais (vol. IV).
1898 – (32 anos)
Criticando, no vol. V da Revista de Ciências Naturais e Sociais, um outro livro de Baltasar Osório, lembra que várias das tradições folclóricas, e processos técnicos, da comunidade piscatória de Matosinhos provinham da influência dos pescadores poveiros que tinham emigrado para aquela povoação.
1899 – (33 anos)
Num magnífico estudo sobre Os Palheiros do Litoral, inserido no primeiro fascículo da Portugália (revista portuense onde Rocha Peixoto desempenhava as funções de “redactor em chefe”), menciona as casas de madeira dos pescadores da Póvoa de Varzim – na época já a desaparecerem ou adaptadas a armazéns de sal e de pescado.
1901 – (35 anos)
Em 14 de Abril realiza na Póvoa de Varzim, na sede da Associação Comercial, uma conferência intitluada “A influência corporativa nos progressos locais”, apresentando, ao apontar as formas modernas de associação, o exemplo do comunitarismo dos pescadores poveiros.
No fim desta conferência o jovem António dos Santos Graça, de vinte e um anos, dirigiu-se a Rocha Peixoto e forneceu-lhe asgumas indicações sobre a vida social dos pescadores da Póvoa de Varzim (que muito bem conhecia). Convidado a seguir, pelo cientista, a escrever quanto soubesse acerca do assunto, desses apontamentos nasceu, mais tarde, O Poveiro, o famoso livro de Santos Graça, editado em 1932.
1904 – (38 anos)
Colocado, como conservador, à frente do Museu Municipal do Porto, encomenda ao artista Gonçalo Artur Cruz, arquitecto da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, uma colecção de miniaturas dos diveros aprestos marítimos dos pescadores da Póvoa.
1905 – (39 anos)
No seu estudo sobre a “Iluminação Popular”, impresso no vol. II da Portugália, explica como o pescador poveiro preparava, dos fígados do peixe, a graxa ou óleo que utilizava nas candeias.
No mesmo volume da citada revista, numa recensão feita aos Ensaios Etnográficos de José Leite de Vasconcelos, nega que a população do bairro piscatório da Póvoa de Varzim tivesse o costume de quebrar as vidraças das igrejas quando, em dias de temporal, os santos nelas venerados não atendessem as suas súplicas (costume a que, na esteira de uma tradição divulgada no Norte do país, Leite de Vasconcelos aludira).
1906 – (c. De 40 anos)
Inserindo no vol. II da Portugália o curioso trabalho “Tabulae votivae”, aí transcreve a legenda de um milagre, ou tábua votiva, que em 1773 a companha poveira de Manuel Francisco Milhazes, após ter escapado a um naufrágio, levara ao santuário de N.ª S.ª da Abadia, nas Terras de Bouro.
1907 – (41 anos)
No vol. II da Portugália, numa violenta resposta ao que Leite de Vasconcelos exarara em 1906 em O Arqueólogo Português, reafirma ser falsa a tradição de que as mulheres dos pescadores poveiros atiravam pedras e areias, durante os naufrágios, contra as igrejas e as imagens dos santos. Pede ao capitão Fonseca Cardoso, secretário da revista Portugália, para elaborar um estudo antropológico sobre a população piscatória da Póvoa – estudo que, levado a efeito, na vila, nos fins do mês de Setembro, saíu a lume no vol. II da dita revista ainda em 1908.
1908 – (41 e 42 anos)
Convence Cândido Landolt a publicar no jornal povoense A Propaganda uma série de artigos consagrados aos costumes dos pescadores poveiros, com a promessa de que a Biblioteca Pública do Porto (dirigida por Rocha Peixoto) editaria, depois, todo o texto num volume. E quando António Santos Graça critica n´ O Comércio da Póvoa de Varzim, aliás com razão, um daqueles artigos – o que acabrunhou Cândido Landolt -, estimula este jornalista a prosseguir na publicação dos artigos, o que realmente se veio a verificar. Reunidas, essas páginas formaram, em 1915, o livro a que Landolt deu o nome de Folk-Lore Varzino.
Colabora ainda com O Club Naval Povoense nos esforços destinados ao levantamento, junto à praia, de um busto a José Rodrigues Maio, o Cego do Maio, símbolo da coragem e abnegação dos pescadores poveiros. Indica ao Club Naval, para a execução da obra escultórica, o artista Romão Júnior, e organiza um júri que aprecie a maquete definitiva a ser apresentada pelo escultor.
Em As Filigranas e na Notícia acerca das explorações arqueológicas da Cividade de Terroso – duas separatas do vol. II da Portugália – anuncia como tendo em preparação o monumental estudo “Etnografia Portuguesa”, em cujo vol. III, com o subtítulo “O Mar”, publicaria os elementos que há mais de 20 anos recolhia sobre os costumes do agregado marítimo da sua terra natal. Mas poucos meses após, a morte derruba-o em plena actividade produtora... .»
por Flávio Gonçalves.
in “O Comércio da Póvoa de Varzim” – Número especial comemorativo do nascimento de Rocha Peixoto, 18 de Maio, 1966
Imagens incluídas na mesma publicação.
Vilagarcía de Arousa.
«Amanheceu. Olharam e não souberam o logar em que se encontravam. Demandaram a costa e não reconheceram as terras que difficilmente divizaram. Deparavam só com altas penedias, d´encontro às quaes talvez, muito em breve, a pequena embarcação de iria espedaçar. Que momentos tão tristemente afflictos... . Viram então soccorro da Providência! – dois navios dirigirem-se para uma terra além. “Rapazes! Remar com lorça, sigamos à derrota d´aqueles navios e encontraremos entrada fácil! Eia Deus é comnosco?” E elles lá foram e aportaram, sãos e salvos, a Villa Garcia.
Alli tiveram um magnífico acolhimento. A população d´aquella localidade recebeu-os de braços abertos, dando-lhes gasalho e pão. Prestaram-lhe magníficos serviços – notável coincidencia! – uns abastados parentes do presbytero hespanhol padre Celestino Otero, fallecido n´esta villa.»
da imprensa, nos dias seguintes ao naufrágio de 27 de Fevereiro, 1892.
Este pequeno artigo, foi um dos muitos que preencheram periódicos da altura, após o conhecido naufrágio de vários barcos de pesca a 27 de Fevereiro de 1892, nas costas Norte de Portugal. Com principal incidência trágica na Afurada (V.N. de Gaia) e Póvoa de Varzim, vários outros barcos acabariam por arribar a costas desconhecidas. No exemplo deste artigo, arribando na província de Pontevedra, na Galiza.
Em 2007, Vilagarcía era a 8.ª maior cidade da Galiza em população, com cerca de 37.000 habitantes e está geminada / “irmandada” em Portugal com a cidade de Matosinhos.
Domingo, 11 de Janeiro de 2026
Viseu e o naufrágio nas praias do norte - 27 de Fevereiro, 1892.
«No dia 27 de Fevereiro de 1892, ocorreu um grave desastre no mar das praias do norte do país, naufragando oito embarcações de pesca (cinco da Póvoa do Varzim e três da Afurada). O número de pescadores mortos ou desaparecidos elevou-se a cento e cinco e os prejuízos em barcos, redes e aprestos foram calculados em 10:000$000 de reis. Em consequência da terrível tragédia, o país mobilizou-se para socorrer as famílias dos malogrados pescadores.
O ministro da Marinha apresentou no Parlamento um projecto para a constituição de um “Instituto Nacional de Socorros a Naufragos”, de largo alcance social. Foram realizados bandos precatórios, espectáculos teatrais de beneficência e, até, na praça de touros de Sintra, de uma tourada de fidalgos, à antiga portuguesa!
A comissão nomeada pelo rei conseguiu que a subscrição pública, então aberta, atingisse o elevado montante de 15:000$000 de reis!.
Viseu, terra em que a filantropia nunca foi palavra vã, também se manifestou favoravelmente, e, para além de um bando precatório organisado pelas corporações dos bombeiros voluntários e municipais, contou com uma comissão, presidida pelo governador civil, conselheiro Pina Callado, de que fazia parte a imprensa local, tendo-se resolvido organisar um sarau dramatico-musical benemerente, a ter lugar no “Theatro Boa-União”.
Emprestaram o seu contributo a esta festa destacados figuras da nossa melhor sociedade, que normalmente integravam os elencos dos saraus efectuados no “Grémio de Vizeu”, assim como uma comissão de estudantes do Liceu. (...).»
in “ O Commercio de Vizeu” nº 590, 10 de Março de 1892.
A imagem mostra a capa da revista "Occidente", de 11 de Março de 1892, com uma gravura de A. Silva referente aos naufrágios.
Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2022
Pelas palavras de Raúl Brandão.
«O poveiro não usa faca, mas é terrível e certeiro com pedras na mão. Ou porque lhe cortassem a caça, estragando-lhe as redes, ou porque andassem de rixa velha, havia às vezes no alto mar verdadeiros combates entre poveiros e sanjoaneiros. Os barcos avançavam uns para os outros à força de remo e a pedrada fervia. Os da Póvoa, que são, creio eu, os únicos pescadores que usam pedras em lugar de chumbeiras, levavam sempre a melhor. Às vezes chegavam à abordagem, de remos no ar, numa algazarra feroz, e havia feridos e até mortos.»
Raúl Brandão, 1921 – “Os Pescadores”.
É precisamente essa rivalidade que estas duas imagens demonstram no filme “Ala-Arriba”, onde as pedras são as armas de arremesso entre barcos, ao que parece neste caso, da mesma comunidade. Volta a ser evidente a importância do mar como território dividido e a respeitar entre hierarquias ou por pescadores de outras paragens. Ainda assim, o poveiro também ia pescar a outros mares, a Sul e a Norte e problemas “de invasão” semelhantes ocorriam.
Curiosamente, quando se descreve a estrutura social desta comunidade, por exemplo por Santos Graça, refere-se que era uma comunidade onde o crime era praticamente inexistente, o que denota sem dúvida como no mar a história era outra. De novo o mar se prova não só como o que dá sustento, mas também onde se acertam contas, fora das “confusões” e intromissões alheias em terra.
Quinta-feira, 5 de Dezembro de 2019
A preto e branco.

Em 1940, foi elaborada em Portugal uma exposição sobre o mundo português da altura, contendo alguns dos mais relevantes locais, tradições e figuras nacionais.
O pescador poveiro foi também uma das figuras escolhidas. Seria interessante saber quem é este "lanchão" nas fotos.
in "A Exposição do Mundo Português de 1940 sob a objetiva do fotógrafo Casimiro dos Santos Vinagre."
Quarta-feira, 4 de Dezembro de 2019
As companhas poveiras de Lourenço Marques - Moçambique.
«A maioria desses lobos do mar reside e trabalha em Lourenço Marques. Durante os breves dias que estive na grandiosa capital de Moçambique procurei, por isso, encontrá-los e trocar com eles algumas impressões.
Na cidade toda a gente conhece a “casa dos poveiros”, à rua Engenheiro Lapa, atrás da Capitania. Os meus conterrâneos são populares e o edifício, por seu turno, é dos mais antigos da povoação. Trata-se duma velha moradia, alta e de paredes caiadas de amarelo, colocada próximo da imponente sede do jornal “Notícias”.
Felizmente que se encontravam em casa bastantes poveiros quando lá fui. Seria meio-dia. No cimo da escada, um pescador fazia a barba ao outro, já idoso. Declarei a minha identidade e o fim ao que vinha – para os cumprimentar e conversarmos um bocado. Logo a “operação” terminou e se aproximaram mais caras sorridentes, que reflectiam almas francas em corpos fortes e rudes.
Cerca duma hora estivemos em alegre convívio, e estes sessenta minutos representam, sem dúvida, um dos mais perduráveis momentos da minha sugestiva excursão.
Vivem em Lourenço Marques perto de 60 pescadores poveiros, distribuídos igualmente por três “companhas”, cada uma com a sua traineira: a “Luz Divina”, a “Esperança” e a “Gabriel Teixeira” (nome do actual e querido Governador Geral da Colónia), de que são os verdadeiros donos, labutam eles quase diáriamente. E após três ou quatro anos de ausência vão até à Póvoa descansar os corpos, ver as famílias, enquanto os navios sofrem as indispensáveis reparações. Por tal motivo, uma companha tinha partido para o Continente havia dias, no “Pátria”. Mas em breve outra chegaria para a substituir.
Remonta a 1921 o ano em que os poveiros começaram a vir pescar para as costas de Lourenço Marques, e alguns lobos do mar desse primeiro grupo ainda por cá mourejam, tendo ido, no entanto, várias ocasiões à terra natal.
Como marítimos, os poveiros gozam na cidade de grande consideração, conforme me disseram várias pessoas. São os únicos pescadores que se atrevem a saír a barra e a colher, no mar alto, o pargo e outros peixes. Depois dos poveiros estão os gregos, os quais porém, nunca se aventuram a ultrapassar a baía.
A sua vida decorre ordinariamente nas traineiras. Quando as demoras em terra têm maior duração, vão até casa, autêntica república democrática, onde não existem distinções e onde, durante um mês, cada um se encarrega, sucessivamente, duma tarefa: este, das compras, aquele, da cozinha, outro, do peixe, etc.. O mestre comanda a faina de bordo e toma a seu cargo as contas. É igual para todos a simplicidade dos quartos, apenas com as camas, as arcas, uma mesa, e mil objectos pendurados nas paredes, de vigas a descoberto. Uns aos outros de ajudam nos seus trabalhos e dificuldades. Segundo contaram, o “Porquinho”, conhecido fígaro do bairro da Lapa da Póvoa de Varzim, pensou um dia em establecer-se em Lourenço Marques, a fim de pôr o seu ofício à disposição dos pescadores residentes na capital. Desistiu, contudo, ao saber que eles estavam habituados a cortar o cabelo e a fazer a barba recíprocamente, conforme, aliás, eu observei!

Perguntei-lhes se não gostariam de ter em Lourenço Marques um bairro só para pescadores da Póvoa, uma vez que eram tantos. Tal oferta já lhes havia sido feita – responderam – com a condição de trazerem as famílias para a África. Mas eles parece preferirem viver sózinhos, em camaradagem. “A vida passa-se quase toda a bordo; não vale a pena”. Além disso “a mulher está velha...” – disseram-me, explicando-se. Os novos, porém, acalentam esse sonho, como depreendi de algumas das suas frases. Seria na verdade interessante e compensadora uma realização desse género.
Para já os meus conterrâneos contam com o carinho do público, que os admira e respeita, e com a gentileza das autoridades da Capitania, muito suas amigas e atenciosas. E a assistência médica, gratuíta, agrada completamente.
Quanto ao amor pela terra-mãe, conserva-se bem vivo nos seus espíritos, o mesmo sucedendo no que respeita às tradições folclóricas da Póvoa. O traje usado na praia de Varzim mantem-se no porto de Lourenço Marques; a mesma camisa axadrezada, o boné de pala e a boina, as calças enfiadas nas botas de borracha ou descidas até aos socos. Nas paredes dos quartos, ao lado de fotografias de entes queridos, vi igualmente gravuras das imagens veneradas na igreja da Lapa. Por coincidência, no dia seguinte ao da minha visita, 25 de Setembro, festejava-se na Póvoa o Senhor dos Aflitos. Pois a data não foi esquecida entre os pescadores varzinenses de Lourenço Marques, realizando na traineira “Esperança” um almoço de arromba, precedido de cerimónias religiosas num dos templos da capital.
publicado no Diário do Norte, Porto, por Flávio Gonçalves.

As fotos que coloquei a ilustrar foram o primeiro passo para ter chegado a este artigo de Flávio Gonçalves. Curiosamente, estes barcos são da Ilha de Moçambique, muito longe de Maputo, onde este texto se centra. Imediatamente estes barcos revelam o passado poveiro em Moçambique, na forma como alguns deles estão pintados. O nome pintado ao centro de uma larga lista, bordeada por duas linhas finas de outra côr a todo o comprimento do barco, e o restante do barco ainda noutra côr, é tipicamente poveiro, desde pelo menos inícios do séc. XX.
A não ser que poveiros também se tenham fixado na Ilha de Moçambique, que fica a 600 km de Maputo, (o texto de facto inicia-se com “A maioria desses lobos do mar reside e trabalha em Lourenço Marques.”) este modo de decoração poveira denota a profunda influência (e seu modo de pescar) que os poveiros da antiga Lourenço Marques terão deixado na população piscatória nativa.
Sendo as costas de Moçambique influenciadas por comerciantes árabes longo tempo antes da presença portuguesa no séc. XVI, essa vertente está também muito presente na maioria dos barcos moçambicanos de hoje e nas suas velas, puramente latinas, mas repare-se no detalhe da vela da primeira foto... ligeiramente cortada junto da proa. Algo também típico dos barcos poveiros e suas velas de pendão de amurar à proa.
Mais uma vez se comprova que através dos barcos, sua tipologia e características também se chega às andanças dos homens, neste caso nas ex-colónias portuguesas e Brasil, Goa, Angola, etc, têm ainda muito desse passado a navegar.