Domingo, 23 de Julho de 2017
Um pouco do folclore poveiro.

SOMBRA MALDITA

 
«O Zacarias Come-Ranho era um pescador cinquentão do bairro Sul. Primeira linha do bacalhau, durante o defeso fazia uma perninha na catraia "Senhor dos Aflitos". Sempre ganhava algum. No fim de "beber a companha" numa loja conhecida do Ramalhão, regressava sozinho a casa pelo areal da Avenida dos Banhos. Só a lua lhe fazia companhia. Antes de chegar à Igreja da Lapa repara que uma sombra gigante o persegue. Dá uma corrida e a sombra faz o mesmo. Pára, e a sombra também. Alma do outro mundo? Demónio? Corredor? Avantesma? Coisa Ruim? - interrogava-se ele enquanto se benzia um milhão de vezes. Chegado à sua rua, dá uma corrida parra afastar a "sombra" que o perseguia e põe a chave à porta. Não se lembra de mais nada. Só se lembra que a sombra o agarra, dá-lhe dois murros e atira-o para a soleira da porta. De manhã, a mulher vendo-o naquele estado, camisa rota e ferido, pergunta-lhe:
- O que foi isso, homem? O que te fizeram?
- Ó mulher, fui perseguido por uma "coisa ruim". O demónio transformado em sombra, uma coisa do outro mundo! ... responde o Carias, mostrando o olho negro.
- Qual coisa do outro mundo, qual diabo! - mete-se na conversa a sua vizinha Maria das Dores que, entretanto, se aproximara.
- Quem o pôs nesse estado foi o meu homem. De madrugada sentimos uma chave na porta e uma voz avinhada a gritar desesperada: abre a porta que eu quero ir prá cama... abre a porta... Para acabar com aquela gritaria o meu homem levantou-se e, no escuro, deu dois murros ao atrevido intruso. Sem luz na rua nunca suspeitou que fosse o teu homem! Para a próxima o teu Carias que beba menos e que veja lá onde mete a chave!
Estava descoberto o mistério da sombra fantasma.»


publicado por cachinare às 19:32
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